A dominância de Golden State é ruim para a NBA?

Em 16 de junho de 2015, o Golden State Warriors sagrava-se campeão da NBA após 40 anos. Liderados pelo armador Stephen Curry e o veterano Andre Iguodala (eleito melhor jogador da final), o time assegurou o título após bater o Cleveland Cavaliers de LeBron James numa série decidida em seis jogos (4-2).

Jogadores do Golden State Warriors comemoram título após vitória por 105 a 97 no Jogo 6 das Finais de 2015.

O estilo de jogo empregado pelo técnico Steve Kerr, das cestas de três pontos, da constate movimentação de bola (e dos jogadores) até achar o companheiro melhor posicionado para pontuar, aterroriza adversários e encanta os fãs de basquete no mundo todo. Contratado em maio de 2014, Kerr, hoje com 52 anos, sabia da importância do trabalho em equipe, de ter um vestiário "contaminado" por um senso de altruísmo, características determinantes para o sucesso em qualquer esporte coletivo. Talvez essa tenha sido a grande lição tirada dos anos em San Antonio sob o comando de Gregg Popovich, treinador multicampeão pela franquia texana.

Mas a sua filosofia seria posta à prova logo no ano seguinte. Após abrir vantagem de 3-1 em novo encontro com Cleveland nas Finais, Golden State foi superado nos Jogos 5, 6 e 7. Numa virada espetacular, os Cavaliers protagonizaram o inimaginável: batiam a equipe que, em 2016, quebrou o recorde de 72 vitórias do Chicago Bulls de Michael Jordan, somando 73 triunfos. LeBron James foi escolhido como melhor jogador da final após liderar o confronto em pontos, rebotes e assistências (algo nunca feito na história), cumprindo a promessa feita em 2014 quando anunciou seu retorno para casa. De trazer um campeonato para Northeast Ohio, que vivia uma "seca" de 52 anos sem títulos nas quatro grandes ligas americanas.

O choro do "Rei". LeBron James vai às lágrimas após título inédito do Cleveland Cavaliers nas Finais de 2016.

Logo após o término da temporada, Golden State responderia assinando com Kevin Durant. Considerado por muitos o segundo melhor jogador em atividade no planeta, o ala de 2,25m de envergadura, entretanto, foi duramente criticado por escolher o time da Bay Area para o capítulo seguinte de sua carreira. Seus detratores apontam para o fato de Durant ter escolhido atuar num time já repleto de talento. 

Ele se juntava a Curry, àquela altura eleito duas vezes o Melhor Jogador da NBA, Klay Thompson, duas vezes selecionado para o Jogo das Estrelas e ao ala-pivô Draymond Green, também all-star e um dos melhores defensores da liga na última década. O gap entre os postulantes ao título, considerável antes da chegada de Durant, ficou ainda maior com sua adição ao elenco de Golden State.

Nos dois encontros seguintes entre Warriors e Cavaliers na grande decisão, o time de Oakland somou oito vitórias e apenas uma derrota. Em 2017, fechou a série em cinco partidas (4-1). Neste ano, "varreu" Cleveland (4-0), conquistando o seu terceiro título em quatro finais seguidas.

Um, dois, três títulos em quatro temporadas. O Golden State Warriors reina supremo na NBA.

Mas até que ponto essa dominância não faz mal para a NBA? Afinal, quanto mais disputado o campeonato, melhor para os fãs, jogadores e para os negócios. Ou não?

"A NBA sempre gostou desse tipo de dinastia, de ter duas equipes dominantes para chamar atenção da mídia", diz Ricardo Bulgarelli, comentarista esportivo e analista de basquete dos canais ESPN. Ele acrescenta que a liga é muito mais do que descobrir apenas quem vai ser o campeão. "Tem o surgimento de novas estrelas, de novos jogadores, grandes marcas que se juntam aos atletas, as movimentações do mercado. Então são várias histórias que surgem a cada temporada que fazem o campeonato ser estouro de audiência." De fato, desde 2015, época que marca o início da supremacia de Golden State, o número de telespectadores que assistiram a fase decisiva da competição cresceu consideravelmente nos Estados Unidos. Por aqui, a ESPN, detentora dos direitos de transmissão das Finais, registrou aumento de 23% na audiência em relação à disputa do ano passado.


Bulgarelli também chama atenção de como as mídias sociais atuam para impulsionar o crescimento da liga. "Você 'tá' no Instagram e vê uma enterrada do LeBron — olha a enterrada do LeBron! Você vê na hora. Você não tem League Pass (serviço de streaming da NBA), TV a cabo, mas tem acesso através do cara que está no ginásio, gravando um vídeo pelo celular. Então é muito fácil você ter a imagem, [e isso possibilita] o surgimento de ídolos. Hoje você segue o jogador no Instagram, Twitter, e sabe qual é a posição política dele. Isso aproxima o fã do time, do jogador." Ao todo, as contas oficias da liga no Facebook, Instagram, Twitter e Youtube ultrapassam 100 milhões de seguidores.

Sob comando de Adam Silver desde 2012, a NBA vive o momento mais próspero de sua rica história.

Mas Ricardo Stabolito, editor do maior portal de basquete do país, o Jumper Brasil, aponta que o cenário atual pode ser um problema para quem, eventualmente, acompanha o torneio. "Para o espectador casual, aquele que só vê um jogo ou outro e quer saber quem vai ganhar, a dominância do Warriors pode ser ruim." No entanto, ele ressalta: a supremacia de Steph e cia não afeta a economia da NBA. "A liga registra excelentes números de vendas licenciadas [...], ou seja, ela não sente falta da competitividade nos cofres e, como qualquer negócio, isso é o que importa mais." Neste ano, pela primeira vez, todos os times da associação passaram a valer, no mínimo, um bilhão de dólares. Além disso, pelo quarto ano consecutivo houve quebra de recorde de público, com mais de 22 milhões de pessoas comparecendo às partidas da temporada 2017-2018.

Vitor Camargo, do Two Minute Warning, site especializado nas grandes ligas americanas, lembra que períodos de hegemonia de uma determinada equipe não é coisa nova na NBA. "Ao longo da sua história, sempre houve times muito dominantes e grandes dinastias. Desde o Los Angeles Lakers de George Mikan nos anos 50, o Boston Celtics de Bill Russell nos anos 60, o Lakers de Magic Johnson e Kareem Abdul-Jabbar, o Chicago Bulls de Michael Jordan, entre outros." Mas enxerga diferenças claras na trajetória de Golden State em comparação com esses times. "Muitas pessoas olham para o Warriors como o novo molde dos grandes times da NBA atual, mas esquecem que ele é um tremendo outlier, um ponto fora da curva praticamente impossível de se reproduzir, resultado de alguns acertos incríveis no Draft e uma série de acasos, incluindo o, agora, infame salto no salary cap de 2016."

A dominância de Golden State eleva a NBA a novos patamares, dentro e fora das quadras. É a força motriz de um movimento ininterrupto e sem volta: a concorrência melhora, ou será engolida por um "monstro" faminto pelo sucesso.

A nova temporada da NBA começa no dia 16 de outubro.

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